Monografia de Sarah Roberto V

O RPG como instrumento de sociabilidade.

A sociedade contemporânea é caracterizada pela atomização, isolacionismo e atividades práticas e rápidas. Por outro lado, há um crescente despertar para associações, para a formação de grupos.

A “sociabilidade aparece como a qualidade de sociável”, aquele indivíduo que gosta de se associar com outros, seja com este, para este ou até se tornando inimigos.

Estas relações de trocas e vivências coletivas – aprendendo a conviver com as diferenças – são essenciais para se conseguir viver em sociedade.

Embora se acredite ser melhor a sociabilidade entre pessoas de um mesmo estrato social, defendo a possibilidade de deixar de lado as diferenças sócio-econômicas e, penetrando no “faz-de-conta” do jogo, sociar-se com os diferentes, tendo o RPG em si como um instrumento facilitador destas relações. O sucesso da sociabilidade não é o ganhar o jogo, mas o momento ali, de interação com as outras personagens dos outros jogadores na trama da historia.

Quando os indivíduos deixam de ser um mero ajuntamento de pessoas e agregam um interesse em comum para a satisfação do grupo, na sociação com o outro dentro das várias formas possíveis, constroem neste instante uma sociabilidade. As personagens criadas para viver longas aventuras com os seus diferentes refletem através das suas relações, dos conflitos gerados e no desenvolver de um trabalho de equipe, a interação do grupo de jogadores em questão, influenciando as possíveis identificações com o mesmo.

Eles, juntos há quase dois anos e meio, sempre estão procurando melhorar a “jogabilidade” do grupo. Embora, o momento de três ou quatro horas jogando não seja um motivo perceptível para suas existências, ali é um instante que eles possuem para extravasar suas emoções, para explorar as possibilidades e sair da frieza que nos impera diversos outros meios de lazer.

Enquanto eles estão jogando, existem constantemente no agir das personagens, ou nas sessões com apenas diálogos e interpretação, muitas trocas de bagagens pessoais.

No ouvir e narrar as histórias surgem espaços para reflexões sobre valores individuais, além da possível inserção dos mesmos no desenvolver das reações das personagens.

“[…] em meio a tudo, a todas as complicações que ocorrem, o grupo se mantém sempre unido. Aqueles jogadores com seus personagens estão ali unidos. E eu acho que isso acaba ensinando sim pros próprios jogadores, ensinando o valor de você, digamos assim ter amigos, o valor de você estar unido com esses amigos, o valor de você cooperar em grupo, o valor de você parar para ouvir o que o mestre está dizendo, porque é só se você parar e ouvir que você sabe o que está ocorrendo. Tem todos esses pequenos detalhes, tipo você saber cooperar […], buscar ser capaz de antecipar uma ação para já traçar sua estratégia e poder ultrapassar aquela dificuldade, tem a questão também de muitas vezes você ter de sacrificar o seu personagem, ter que sacrificar a evolução dele no jogo para poder salvar a vida do personagem de um amigo.” (Paulo, 26 anos).

Na dinâmica do jogo do sistema AD&D e D&D, o grupo, o amigo, a honra de ajudar o outro é muito forte e notória. Quando assistimos ao filme “O Senhor dos Anéis”, percebemos as lições de amizade, de companheirismo e de lealdade nos personagens. Temas não tão discutidos na nossa sociedade utilitarista, ou em outros lazeres. Presenciando uma das sessões, chamou bastante a minha atenção, quando as personagens haviam chegado num povoado de elfos e dentro do grupo havia um drow. Geralmente, qualquer ser vivo tem medo de um drow, por que eles são espécies de elfos levados para o “lado negro da força”, muito maus e sem misericórdia [generalizando, não sendo totalmente fiel ao roleplay do RPG]. Porém, o drow que se encontrava com o grupo havia passada por uma fase de restauração de sua vida, estava arrependido pelos seus maus atos e estava disposto a seguir outro caminho. Ele era bastante leal ao grupo e este o defendia a todo custo. Desta forma, ao entrar no povoado dos elfos, ele logo foi rejeitado, e após muitas explicações e defesas em seu favor pelo grupo, permitiram que ele permanece naquele local, aparentemente sagrado.

Como esta cena dentre outras, podemos perceber que enquanto estão jogando, por meses ou anos, os vínculos fortalecidos e a confiança estabelecida, as personagens refletem sobre assuntos que vivemos no dia-a-dia, em contextos e mundos diferentes, mas a essência das circunstancias é a mesma. É inevitável para uma pessoa de fora observar que esse lazer proporciona mais do que a diversão. As emoções são reais, assim como as reflexões.

Minha curta aventura de três meses como Sariel, uma meia elfa, mesmo travando uma luta constante para me manter neutra, ainda assim me influenciou bastante, fazendo-me refletir sobre minhas atitudes e sentimentos guardados. Fiz o perfil da minha personagem exaltando aspectos que eu não tenho. Alguns jogadores seguem uma tendência mais próxima da sua personalidade para facilitar a interpretação; outros aceitam o desafio de interpretar algo diferente deles mesmos. Eu adotei uma linha que valoriza o aspecto psicológico da personagem.

O pouco tempo que passei com este grupo, serviu para quebrar vários paradigmas que eu havia construído sobre os próprios rapazes, pois já os tinha visto pela faculdade e nunca passaria pela minha mente que um dia eu teria algum convívio com eles.

É interessante a relação que o RPG, no conceito do jogo, estimula entre os envolvidos, tanto antes, durante como depois da sessão. As conversas são diversas, trocam dvd’s de filmes, discutem opiniões sobre outros jogos ou sobre desenhos japoneses. Alguns se tornam mais amigos do que outros.

Embora a maioria tenha outras formas de sociabilidades com outros grupos, eles declaram nas suas risadas e nas brincadeiras o convívio à vontade dentro deste grupo de RPG.

“O jogo de RPG facilita a sociabilidade de jovens jogadores que, muitas vezes, se conheceram formando grupos para jogar e, a partir de afinidades, tornam-se amigos.”

O desenvolvimento das personagens e o diálogo que surge através da narrativa e da interpretação são importantes elementos para se perceber essa formação de amizades, esse estreitamento de laços que se estendem além do jogo.

No próximo artigo sobre o nosso hobby visto por uma ‘ciêntista’, ela fala sobre Os elementos do jogo e suas contribuições.

Até mais…

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